sábado, 31 de outubro de 2015

Ah, não fosse um porto!


Fiquei no exílio todo esse tempo por conta dos ventos, das idas e vindas das correntes. Gosto do Diário da Berlinda, não o quero como ilha distantes e sim como trilha da memória, na rota dos mergulhos em águas profundas e sutilezas da superfície. Não sei ainda como ficarei neste mirante, neste farol das minhas observações. Meu romance está por aí, nem sei por onde. Vou bater poeira na estrada. O "Berlinda - Asas para o fim do mundo" terá uma segunda edição. Por enquanto olho as coisas em volta e planejo uma nova viagem no barco das letras. Bom dia para os passageiros.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O Demônio não quer que acreditem nele

Por onde andará Engel?


          Não dá para escapar de dezembro, é um mês inevitável. Perdoem essa conclusão bineuronial em baixo dos caracóis de louras madeixas, claro esteja. Os outros meses também o são, mas dezembro é dezembro e acabou-se a história no cu da vitória como diziam algumas velhas tias que devem estar no limbo e umas vizinhas folgazãs que jogavam um charme, nem sempre discreto charme, sobre a rapaziada do bairro que estava “no ponto”. Dezembro é foda, pois traz a sensação de que tudo terminou, de que o mundo acabou, de que o que não foi para lixo foi pra baixo do tapete...

          Mil desculpas, mas aqui já confesso que tenho bronca de gente que baba ao fazer pregação do descarte. O que é isso? Dá a impressão que a vida é um monte de copinho de plástico de cafezinho de repartição ou copo ao lado do bebedouro da sala de espera que às vezes nem água gelada tem na torneirinha indicada para a sede do sedento cliente. E pasmem! Esse é um risco que todos os nós corremos: ter cara de copo de plástico, um iplaczinho vagabundo amassado na mão do distinto ou da distinta e que se não acabar na lixeira pode ir para lugar incerto e não sabido ou entupir os bueiros da vida.
  
       Tudo é bem mais simples. Dezembro é a última folha do calendário, as últimas páginas das agendas que já bastariam para dizer: te cuida capivara que a maior façanha do Demônio é fazer que ninguém acredite nele. A referência ao Demo (não é videoclipe, pliss!) peguei no romance Shikasta, da escritora Doris Lessing, que morreu em novembro do ano passado, em Londres. Era filha de ingleses, nasceu na Pérsia e viveu muitos anos na África. Preciso ler mais livros dela, romances que fui comprando ao longo tempo, mas que fazem parte do que chamo minhas leituras avulsas. Eles estão sempre à vista e lá uma hora eu pego algum e me deixo levar.

          Você acredita em dezembro? Acha que ele fechou um ciclo? Você está enlouquecidamente fazendo lista de prioridades e promessas para o próximo ano achando que viverá o neo Renascimento? Remoendo pecados que não quer mais cometer? Dezembro é igual ao Demônio e nem se abala com o sinal da cruz. Você não precisa acreditar em dezembro, ele nem abre mão dos seus disfarces esgueirando-se entre uma tal generosidade que enche o saco de todos os Noel, Santa Claus ou Saint Nicholas ou sabe lá quem mais que se arvore a ser doador de alegrias e felicidades devidamente contabilizadas. É um mês em que os sonhos custam caro e deixam muita gente no vermelho.

           Daí que a tal generosidade também pode ser precificada. Arrisco-me a levar pedradas ao lembrar que “A esmola quando é muito, o santo desconfia”. Será? Numa terra onde há mais oratórios do que santo como o Brasil, a esmola tem beirado os milhões e bilhões de reais e ou milhões de dólares dependendo do freguês sem ter que dividir tanto pelos milagreiros. Esmola ganhou o pomposo nome de propina, de dinheiro lavado pela corrupção e pelo tráfico.

          Pois é, tempos de festa e eu aqui com essa dureza de alma. E quem vai querer ouvir uma alma descrente quando a maioria não quer nem passar ao lado dos desmancha-prazeres?

          Vou fingir que sucumbi, até porque dezembro não veio pra me deixar triste, mesmo com toda a carga de tristeza que ele esconde do outro lado do jegue que se mostra apenas num ângulo lateral. Sem falar nas coitadas das renas carregando o velhote gordo com sua montanha de presentes. É mole? Nem tecnologia e nem inovação para poupar os pobres animais do peso da carga...

          Pois bem, a semana passou e não consegui escrever no sábado e nem no domingo. Alguns compromissos irrecusáveis me tiraram de casa. Dezembro faz a mágica de resgatar gente que andava sumida ou pelo mundo. Isso é o bom da história. Mas mexe com minha crescente sociofobia.

           Nem em foto pensei para colocar no meu Diário da Berlinda, até que fui salvo por um amigo alemão que me mandou uma imagem de lá das terras de Deutschland, onde aparece uma placa com o nome Engel, um dos personagens do meu livro. É incrível como personagens ganham vida e assim aconteceu, Engel veio me visitar em companhia do amigo Gunter, dois maluquinhos, um na ficção e outro do mundo real.

            É uma coisa que começou desde que comecei a escrever. Os personagens acabam povoando nosso mundo real. E dizem coisas, deixam pistas, pensamentos, provocações como esse trecho do capítulo final de Shikasta, de Doris Lessing. Na solidão de uma cidade que está sendo construída, o personagem escreve sobre os homens, iguais ao longo das eras:


“Pobre povo do passado, pobre povo, tantos e tantos, por milhares de anos, sem saber nada, tropeçando e procurando e desejando algo diferente, mas sem saber o que lhes tinha acontecido, nem o que desejavam.”

“Não posso deixar de pensar neles, nossos ancestrais, o pobre animal-homem sempre matando e destruindo porque não podia fazer diferente.”

“E isso continuará para nós, como se estivéssemos sendo erguidos lentamente e envoltos e purificados por um vento suave e cantante que limpa nossas mentes confusas e nos protege e cura e nos alimenta com ensinamentos jamais imaginados.”

“E aqui estamos nós, todos juntos, aqui estamos...” 

domingo, 14 de dezembro de 2014

Sob as luzes de dezembro

A velha árvore de Natal voltou à sala depois de ser esquecida por muitos anos


Dezembro é um mês que nos faz, inevitavelmente, olhar para trás, não importa a distância já percorrida até aqui. Às vezes só nos damos conta disso bem tarde, mas todos nós iremos um dia nos defrontar com esse instante. Penso que comigo tudo foi muito precoce. Andei lado a lado com a tristeza e a alegria muito cedo e elas não precisaram se apresentar com a pompa dos grandes bailes ou a dor imensurável das grandes tragédias. Já faziam parte da minha natureza e posso até dizer que são quase como minhas células-tronco tal a capacidade de autorrenovação. São autorreplicantes e podem se transformar se for o caso e, na minha visão, têm fôlego de sobreviventes. E mais, são capazes de virar outra célula como uma metamorfose ambulante.

 Dezembro não é triste, eu é que brigo com uma melancolia natural que me acompanha desde cedo, mas que cede seu lugar quando lanço mão de coisas que podem ser pequenos atos como dar meu tempo a alguém, escutar uma música, ler um livro, escrever, desenhar, assistir um filme, pensar, viver minhas saudades e o direito de ser triste quando a tristeza é necessária para me despertar para a vida. Não preciso de megaeventos para achar que sou um ser privilegiado. Acredito que ao longo do tempo aprendemos a construir pequenos artifícios para transitar pela claridade, pela sombra, pela luz difusa das transições que nos acompanha no final dos ciclos. Aprendi uma dureza que se aprende na luta do rochedo contra o mar, com muita disciplina. Mas não temo mostrar minha fragilidade como coisa de fracos, pois ela é um desafio importante a duas coisas que nos tornam humanos melhores: sentimento e inteligência. O que nos fragiliza pode fortalecer nossa percepção.

Dezembro é assim, dividido entre banquetes e mesas vazias. Não é o mês em si que pode me deixar down, mas lembro de quando eu percebi que ele simbolizava solidão. Eu estava em Berlim e recebi uma carta de um amigo muito querido que morava em Stuttgart me convidando para passar as festas com a família dele, que não era bom ficar sozinho no Natal. Há muitos anos eu já nem sabia o que era passar as festas de final de ano em família, em especial depois que meus pais morreram. Algumas vezes eu estava fora de Belém, batendo perna pelo mundo, algumas vezes num plantão de redação e outras vezes, desde que saí de casa, trancado no meu apartamento, quieto e sem espírito natalino. Acho que depois que a gente perde o tal espírito natalino ele jamais será resgatado. Não falo isso em tom de lamento e, nessa perspectiva, dezembro ficou menos dramático para mim.

Dezembro, melhor deixá-lo como é senão a emenda sai pior que o soneto. Assim penso.

Dezembro e seu tecido esgarçado, roto, com alguns buracos, fiapos, com manchas de vinho maculando o branco linho da toalha bordada, trilhas de migalhas de rabanada. Dezembro da velha árvore natalina, a lembrança de um presépio que se perdeu no tempo, ecos de vozes e risos. Tudo isso se passava na minha cabeça na viagem de trem entre Berlim e Stuttgart. Cheguei à gare e meu amigo me esperava com um sorriso acolhedor. E veio a noite da ceia. Vários amigos da família passaram para visitas e troca de votos e presentes. Em mim havia alegria e uma estranheza de estranho no ninho. Lembro que ganhei uma camisa quentinha, cor de telha. Mas não havia a grande aglomeração como nas casas brasileiras, como na minha casa. Mas na verdade nada de novo, só o frio rigoroso do inverno.

 Dezembro logo se vai. Tem gosto de tanta coisa. O pior é a sensação de ausência. Hoje senti saudade do Willi Hoss, esse meu amigo alemão que já não está mais por aqui. Lembrei das nossas caminhadas trocando ideias, jogando conversa fora, saboreando a vida com a sabedoria na companhia de um homem de bem, simples.

 Dezembro me faz pensar na falta que faz essa simplicidade do ser, dos encontros descontraídos, do se dar  incondicionalmente, do não artificializar os sentimentos ou a emoção, do não trapacear, do não abusar da arrogância de se achar o centro de tudo.

 Dezembro trouxe de volta a árvore de Natal que eu não gostava mais de armar. Criou um elo com algumas lembranças que eu queria resgatar, lembranças felizes para compensar o peso de algumas perdas importantes, este ano, que me balançaram, que me tiraram do eixo. Mas há em tudo isso, também, um ritual de libertação. Dezembro passará. Eu passarei. Todos nós somos passageiros levando na bagagem o que fomos recolhendo pela vida, Diamantes ou bijuterias. O que importa? Cada um sabe o que guarda seu relicário.


domingo, 7 de dezembro de 2014

Paulo Nunes, Franciorlis Viana e Jamil Damous

Olho minha Lettera e é como se cada tecla mexesse com minhas memórias. Foi presente de uma amiga, Maria Elisa Guimarães, professora de Filosofia. Virou peça do meu museu particular, mas me acompanhou por muitos anos, até que o computador entrasse definitivamente na minha vida. Esta semana passei em duas lojas e vasculhei na internet as promoções do e-reader. Os preços despencaram e são tentadores. As coisas vão mudar no meu modo de ler, mas não vão eliminar os rituais vividos a minha vida toda no meu universo dos livros, que não perdem o encanto dos fetiches. Tanto que...


... Estarei de olho em lançamentos para os quais fui convidado, ainda que virtualmente:

 Dia 10, o escritor e poeta Paulo Nunes, lança o seu livro “Gitos – meus minicontos amazônicos”, pela editora Paka-Tatu, às seis e meia, na Fox da Dr. Moraes.

Dia 11, Franciorlis Viana apresenta seu livro “Fantasilhoso”, no IAP, ao lado da Basílica de Nazaré, às sete da noite.

No dia 20, o poeta e compositor Jamil Damous vem a Belém lançar o livro de poesia “O Rei do vento”, a partir das cinco e meia, na Praça do Artista do Centur, com um grande show que traz para o palco amigos e parceiros do autor como Nilson Chaves, Vital Lima, Lucinnha Bastos, Juliana Sininbú, Ana Clara Nassar Matos, Andréa Pinheiro, Simone Almeida, Renata de Paula, Pedrinho Cavalléro, Armando Hesketh e Paulo R.C. Guedes. Haverá letiura de poemas cm Emanuel Maros, Geraldo Salles, José Gondim, Yeyé Porto e Marina Lúcia.

          O mundo analógico traz o calor e a emoção dos encontros como nos velhos tempos, com olhares e abraços, a alegria da presença e eu ainda não consigo imaginar o lançamento de um e-book com essa energia circundante. Os convidados teriam de levar seus e-readers e na hora do autógrafo tradicional contar com algum aplicativo para ser usado via touch screen para pressionar a digital em algum ícone biométrico do aparelho. Quem sabe até uma leitura da íris! 

          O novo leitor está a caminho, mas a travessia acredito que ainda vá durar algum tempo nesses tempos de alta velocidade na mudança dos padrões tecnológicos do consumo, comportamentos e novos hábitos. Eu ainda sofro aqui ao ver montes de livros empilhados no apartamento, disputando espaços cada vez menores para ocupar. São que nem posseiros.

          No universo das novas tecnologias é fascinante saber que poderemos levar num aparelho que se ajusta na palma da mão e que pode nos acompanhar numa mochila durante um giro pelo mundo levando o equivalente à Biblioteca de Alexandria, destruída num incêndio por invasores árabes no ano de 646 d.C. Caminhamos para o mundo sem papel. As florestas viverão uma nova trégua ainda que isso não lhes garanta o desmatamento zero.

          Não verei esse dia como coisa cotidiana. Fico dividido numa saudade de um tempo que se foi e outro que virá - saudades do futuro, juro!. Virá com o desejo de ter essa nova e inovadora realidade plenamente. Acho que minha alma se queda numa séria crise de identidade. Tenho uma visão mundana dos anos 20 e 30 do século passado e a miragem de um futuro onde a única coisa analógica que gostaria de ter era o amor, qualquer maneira de amor...





sábado, 29 de novembro de 2014

Adeus, PD James!

PD James faz parte de uma saga de escritoras de romances policiais
que nos deram tipos inesquecíveis como  os detetives
 Cordélia Gray e Adam Dalgliesh criados pela escritora.

2014 parece um ano de extermínio.  No dia 27 de novembro, morreu a escritora inglesa Phyllis Dorothy James, Baronesa James de Holland Park, título concedido a ela pela Rainha Elizabeth II. PD James, como era mais conhecida, é uma das minhas escritoras preferidas no mundo das histórias policiais, um gênero que sempre povoou minha cabeça e que hoje me mostra que eu gostaria de ser um escritor de livros policiais. Mas isso será apenas um sonho, nada além disso.

PD James morreu aos 94 anos e sempre penso que a imortalidade do autor conferido pelas obras deveria ser também a do mortal. Escritores deviam ser como vampiros, viver mais de 500 anos, com juventude eterna e mente criativa para produzir o máximo que pudesse. Mas são mortais e deixam o vazio dessa ausência.

Perdemos as referências de nosso tempo, não importa se essas pessoas morem na mesma cidade que a gente, ou em Oxford, como PD James. É como se fossem parentes de convivência tão próxima que dizer adeus fica difícil.

Preciso acreditar que essa saudade é boa e que vai me fazer olhar a vida com gosto. Por hoje é só. Não sinto vontade de escrever. Aliás, há algumas ideias tomando forma e alguns textos em produção. Preciso mergulhar de novo nas águas das letras e ver o que trarei à superfície.


Adeus, PD James!